Fundação Padre Anchieta

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Durante a minha infância e ainda na entrada da adolescência era sempre ele que se encarregava de fazer a bola rolar. Quando todos estavam naquela preguiça depois do almoço e a meninada se mostrava disposta a bater uma bola lá ia ele com a gente pro quintal ou para a praia. Nunca resistiu à brincadeira. Salvava a molecada do tédio e secretamente saciava uma vontade que tinha também. Quem o conhece sabe, sempre teve fome de bola.

Ao longo da vida foi dessas figuras indispensáveis para que o jogo aconteça. Aquele sujeito que trata de arranjar os uniformes, comprar a bola, acertar o local onde será travada a pelada. E, nesse caso, para desespero da minha tia, ainda levava o jogo de camisas pra lavar em casa. Devia ter prazer em vê-las tremular no varal. Agiu sempre como essa espécie de cartola informal que o jogo de bola sempre exigiu. Duvido que você não tenha conhecido alguém com vocação parecida ao longo da vida. Aquele amigo que sempre batia na sua porta com a bola embaixo do braço. Aquele que antes de se despedir fazia questão de lembrar uma vez mais que no dia seguinte tinha jogo contra a turma da rua de trás.

Talvez seja poético demais, mas jamais será exagero dizer que boleiros com essa inclinação sempre foram verdadeiros semeadores de futebol. E que bem fizeram ao jogo ao longo da história! Logo, não foi à toa que a tristeza bateu quando, já aos setenta e dois anos de idade, o corpo reclamou dos movimentos que a brincadeira exigia. O bendito joelho, essa dobradiça tão vital. Só ela mesmo pra lhe fazer um ausente. Impedido de bater uma bolinha nunca foi o mesmo. Como poderia? Mas tratou de manter os laços como podia. Na sexta preparava a berinjela no azeite. As torradas. O petisco que ia acompanhar a cerveja depois da pelada. Não se deu por vencido. A paixão não deixaria.

Encarou fisioterapia e até uma musculaçãozinha. A barriga pronunciada nunca foi problema. E você pode duvidar, dizer que é história pra boi dormir, mas ele voltou, meu Tio Afonso voltou a jogar aos setenta e nove. O homem tá lá na meiuca, cheio de estilo, só distribuindo. Provando para os céticos que o campo é mesmo cheio de atalhos. E tem ido muito além deles, acreditem. Contou pra mim - com aquela empolgação que eu conheço desde moleque - o que aprontou em campo outro dia ao ver o lateral descer em velocidade. Se adiantou um pouco. Teve a petulância de invadir a área. E quando mirou a bola vindo não resistiu. Se jogou na direção nela, de peixinho! A ousadia fez um silêncio súbito pairar no campo. Só quando teve que se levantar é que se deu conta do que tinha feito. Aos poucos os olhares preocupados foram sendo substituídos por outros que estampavam surpresa. Percebeu o risco que correu. Achou que valeu. Se sentiu um moleque de novo, vivo. Só ficou faltando o gol. Mas saibam: foi por pouco, muito pouco.